O futuro do mercado da saúde no cenário pós-pandemia

O futuro do mercado da saúde no cenário pós-pandemia

Como as inovações impulsionadas durante o enfrentamento à Covid-19 mudaram a percepção sobre a saúde e o que poderemos colher dessa experiência

Artigo de Fábio Abreu- CEO da hCentrix

O sistema da saúde passou por grandes transformações no último ano (e continuará passando nos próximos anos) impulsionadas pela pandemia. É que esse sistema atraiu os olhares do mundo todo graças a um ano atípico em que se falar de saúde deixou de ser importante para ser imprescindível.  Destacamos aqui alguns impactos importantes no setor:

O primeiro é a aceleração da adoção tecnológica que fez colocar em prática produtos e inovações que já estavam em desenvolvimento, mas que poderiam levar até mais de uma década para serem utilizados de forma massificada.  A saúde tem e sempre teve muito espaço para inovação, isso não se pode negar, porém, é um dos setores onde a adoção massiva de inovações ocorre de forma mais demorada. No entanto, a Covid-19 foi uma “incentivadora da inovação” ao exigir do mercado, urgência em se investir e apresentar soluções para uma realidade imprevisível e imediata. 

Vivíamos uma espécie de “setorização da saúde” tanto a nível governamental quanto nas empresas, cuja responsabilidade podia ser colocada para um ministério, uma secretaria ou um departamento dentro da empresa. Como segundo impacto, a crise mostrou que a saúde não pode mais ser tratada dessa forma. Nas organizações mais especificamente, a saúde era, quando muito, tratada apenas esporadicamente em reuniões do conselho de administração. A partir da pandemia as corporações passaram a enxergar e compreendê-la de forma diferente.  A saúde mostrou “sua força” em 2020 e passou a ser uma variável importante para discutir crescimento da empresa, seus concorrentes, sua inovação, estratégias, ou seja, tudo.  

A percepção de que a saúde precisa ser tratada de forma integrada e muito mais ampla foi enfim compreendida e temos a esperança que, nos próximos anos, seja incorporada por todas as instituições. Com isso, a saúde ganha seu espaço devido e passa a estar presente em discussões sensíveis e estratégicas de uma empresa, de um estado, de um país e, por que não, do mundo – a pandemia é um aprendizado novo para a humanidade em uma era de globalização. Vale lembrar que não existia, em nenhum lugar do mundo, preparação, ou minimamente um plano contingencial, para uma pandemia como a provocada pela Covid-19. Como a saúde sempre foi vista como algo restrito e setorial – e como pandemia afetou a tudo e a todos nas dimensões básicas de uma sociedade – econômica, social e tecnológica – não havia estratégias estabelecidas para lidar com ela. 

O terceiro impacto é que ela também aflorou algumas discussões sobre a composição “o que” realmente é importante para saúde, para além das inovações tecnológicas, do incentivo aos bons hábitos de vida, da busca contínua pela melhora do ambiente em que vivemos e a nossa maior compreensão do universo da genética.  A pandemia mostrou que a questão do acesso aos recursos de saúde é um ponto central e que a discussão e o destino dos investimentos devem ser tratados com a maior seriedade e buscando o melhor impacto, independentemente se públicos ou privados.  Faz sentido a cidade de São Paulo ter 4.927 leitos de UTI (dados CFM mar/2018) e toda a Itália em mar/2020 ter 5.343 com uma população 5 vezes maior? O que dizer do Reino Unido com 4.123 leitos em jan/2020 para 68 milhões de pessoas?  O Brasil com seus 46 mil leitos de UTI (CNS 2019) e uma média per capita muito superior aos países citados, teve sérios problemas com atendimento da população. Ficou claro o desequilíbrio na alocação de recursos em detrimento da atenção primária e secundária – sim, somos um país hospitalocêntrico por excelência – além de falhas estruturais na alocação geográfica de recursos e sobretudo, uma miopia geral sobre o que efetivamente é saúde populacional.

Outra questão que ficou bem evidenciada durante esse período e que podemos considerar um ponto positivo daqui em diante, é o enfraquecimento do mito de que a mão de obra humana na saúde poderia ser substituída, em algum momento, pela adoção de tecnologias cada vez mais assertivas e precisas na saúde. A pandemia mostrou, no mundo todo, que a demanda por equipes de saúde é alta e vai continuar assim, mesmo com a evolução tecnológica.  A área da saúde é uma das áreas que mais cresce na utilização de mão de obra no mundo e essa demanda deve aumentar devido a outros fatores, entre eles, o surgimento de outras doenças, as condições de envelhecimento e mudança do perfil epidemiológico e, agora, o temor por epidemias.

Devemos entender, com a nova conjuntura gerada pela epidemia, que a saúde é um bem dos mais democráticos, tanto que muitos entendem como algo que existe per si, mas não é verdade.  Fica evidente o pouco caso com ela e com a sua correta coordenação no nível populacional quando surge uma crise como a gerada pela Covid-19.  Esperamos que a sociedade mundial, não apenas os governos, desenvolva uma maior consciência sobre a necessidade de planejar, coordenar e gerenciar a saúde em todos os níveis. 

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